segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Escrita Corrente






  =====================================





           DENUNCIE O FASCISMO BRASILEIRO que está ATUANDO NAS INSTITUIÇÕES DE ESTADOS COMO RIO DE JANEIRO          

                   
                   escrita corrente

                              Eliane de Morais


             
    Ficção: O atentado à rede das Trattorias
              (minha interlocução dos anos dois mil e quatorze aos livrinhos de bancas de jornais de antigamente, aquele  "ficção científica" em que num futuro milenar as mulheres dominavam os homens exatamente como na sociedade as instituições masculinas dominam as mulheres;     mas aproveitei esse pre-texto numa imbricação sugestiva à tese poliândrica do modernismo brasileiro; elaborado entre 2012 e 2014)

I)
        Aquelas vozes que estão lá estão aqui, lá é em que consistem, o mundo não é independente da massa indistinta ou da cortina vaporosa, um fumê, que tem fronteira em nosso cérebro incorporado.

II)
         A heterogeneidade pensável. Alhures, conceitos, méritos, fósforos que estão sobre o armário da cozinha, a microsoft é o problema, e algures, projeções. Conquistei um bocado de tempo ao solapar o discurso do (pseudo)-conquistador barato - o ocidente ele mesmo, nada menos. Eu imagino uma estória em que o estereótipo de gênero estivesse invertido. As mulheres seriam as protagonistas da história, assim como nos habituamos a considerar os homens. Então os homens seriam pensados assim como estão habituados a pensar nas mulheres.


 III)

           A protagonista pensa em como os homens são idealistas e, portanto, como a psique deles é infantil em relação à nossa, então ela se relembra que não devemos forçá-los a encarar os fatos e devemos condescender com as superstições religiosas dos nossos maridos, contanto que eles não nos constranjam também. Ah, ela não aguentaria se um deles a constrangesse com todos aqueles rogos e amuos que só os homens sabem fazer. Mas, justamente, é o que um dos seus maridos, Koss - Aki, que todos chamavam Kossak,  estava parecendo planejar. Evidentemente, nessa estória as mulheres tendem a ser mais honestas, então a inversão do gênero resultaria em poliandria, não em relações paralelas e escusas. E ela estava pensando que precisava consultar uma terapeuta porque, de uns tempos para aqui, só "conseguia" com Kosak.
     Ela estava adiando isso, mas sabia que era uma questão importante, porque os outros maridos, ela tinha apenas quatro, e a mais, Kosak, evidentemente iam cobrar dela as suas obrigações conjugais. Mas não adiava apenas porque sinceramente cogitava que devia ser um aborrecimento e porque, no íntimo, queria mesmo tão bem a Kosak. Enquanto isso, o que estava ocorrendo era um novo problema na "central de insubordinação", onde supervisionava os casos de sedição correntes.
             Começo a me encher dessa heroína com sua sedução, às voltas com nada mais que um homem frívolo, quando até poderia ser que houvesse, entre os outros maridos, algum caráter sério e que valesse a pena, com o qual a gente precisaria de quilos de intertextos sábios derramando-se pelos lábios do avatar, com mais um bocado de concentração para sacar carradas de sensatez, e, ao contrário desse moreno rechonchudo e sensual, ele seria etéreo e loiro.
         Mas por algum motivo misterioso continuo a imaginar a cena em que ela, na sua escrivaninha de trabalho, está entre o frêmito e a ânsia, pensando em quando voltar a casa nesse ínterim periclitante em que o moreno dos seus sonhos está planejando algum avassalamento da sua consciência, com um arsenal de estratagemas a fim de convencê-la a participar do ritual.
        Ela se lembra, então, que só tem alguns minutos para arrumar os papeis antes que Mars, Frenz e Tibbs adentrem pela porta com o caso em questão desta manhã. Ela já estava sabendo, pelos jornais, é claro. Mais uma bomba numa trattoria.
        Era perto da décima quinta em dois meses. As cobranças da população pesavam como que tangivelmente sobre as pequeninas paredes do núcleo do departamento.
        Ela sentiu por ainda um pequenino intervalo de tempo que gostaria de continuar a pensar em Kosak, mesmo que fosse por todo aquele aborrecimento do ritual. A reunião dessa manhã prometia ser mais difícil do que desejaria.
         Tibbs ganhara uma margem, pelo acúmulo dos atentados seguidos. O que Tibbs pretendia não era inteiramente do seu agrado. Mas ela não teria muito com que convencer as outras.
       Após as imagens mostrando detalhadamente o estrago na trattoria, alguns comentários esparsos se seguiram. Nada muito significativo, até Tibbs começar sua injunção, já conhecida, de que uma mulher idosa, que morava com um velho mordomo, numa casa na Rua das Belas Artes, devia ser investigada como suspeita mais provável de estar financiando uma rede de malfeitoras.
         A delegada, atuando como supervisora da equipe, pessoalmente não desconfiava da mulher, e argumentou o que lhe parecia mais estranho naquele caso. A dona da trattoria, mais uma vez, não apresentara queixa. As bombeiras e socorros chegaram por causa do alarde da vizinhança.
       Frenz, que a apoiava mais que todas naquele caso estranho e quase inverossímil - quinze bombas, num período de três meses, todas atingindo trattorias, sem que qualquer pista se apresentasse - balançou a cabeça com um gesto afirmativo. Concordou que esse era o traço mais estranho. Ponderou que as saídas da mulher idosa, já cronometradas por Tibbs de modo a demonstrar que precediam os atentados mais recentes, sem que ela saísse em quaisquer outras ocasiões, não eram motivo suficiente para iniciar a devassa de sua rede informática. Mas Tibbs tinha uma carta na manga, que desconhecíamos.
        Avançou que a devassa seria mesmo impossível, e este era o indício essencial. A impossibilidade se devia a que, como Tibbs descobrira por informantes ligados a redes particulares, o sistema informático da mulher era indevassável.
         Algo tão espantoso quanto nevar em pleno Rio de Janeiro  - aduzira Tibbs.
          Isso em si induzia a crer que era culpada de alguma coisa, ela continuava a perorar, e já sabendo-se do que Tibbs apreendera em termos da coordenação precisa entre suas saídas e a eclosão dos atentados, parecia imperioso que forçassem por todos os meios espioná-la licitamente - ainda que às ocultas -  até encontrar as provas necessárias. Tibbs já possuía em mãos o formulário de autorização para instalarem os cabos de transmissão de imagens e gravação de sons, desde o interior da casa.
           A supervisora indagou, candidamente, como Tibbs estava tão bem informada mas não sabia ainda onde a mulher ia, quando saía. Este era o ponto chave, porém, na argumentação de Tibbs. Ela fez lembrar que já havia levantado esse ponto antes, e que o problema era que a pista da mulher se desvanecia, a pouca distância de onde começava a ser seguida. A supervisora não sentia confiança somente nisso, mas o fato de Tibbs estar repetindo algo que todos conheciam pesava contra as suas tentativas de contra-argumentar. Gostaria de indagar mais, sobre os meios de Tibbs para conseguir as informações. Mas sabia que seria estranho insistir contra alguém de reputação ilibada e com a competência correlata ao caso. Secretamente suspeitava que Tibbs, mais jovem, manifestava satisfação em demonstrar-se mais desenvolta e decidida, e que isso seria até mesmo natural, tanto mais se ela se aferrasse à mera intuição. Os meios estariam documentados, de qualquer modo. Ela não pensou em alternativa alguma além de apenas aquiescer.

         Retornando ao lar, a supervisora vinha pensando em:
          a) como Tibbs a irritava, e como ela devia fazer auto-análise, segundo prescrito pelo regulamento da saúde mental; porque a irritava? Porque era mais jovem? Estava com ciúmes?
        b) frenesi: entre o aborrecimento que lhe causava pensar na exigência dele do ritual e a excitação, quando pensava nele, no que estaria aprontando para convencê-la...
          c) ainda não comprara o joguinho eletrônico que Servs, um dos seus maridos, o baixinho, lhe vinha insistentemente solicitando.
     
      Conforme seu costume, e manter a ordem do costume era constante do regulamento, após tomar banho e jantar sozinha, devia visitar os maridos em seus aposentos. Começava pelo Servs, o baixinho, tão cândido quanto um menininho, com quem ela se casara pela compaixão - ele havia sido tão pobre, que a mãe o estava literalmente vendendo a qualquer uma que o adotasse.
          Ele estava feliz hoje, era um homem engraçado, quase um anão. Os cabelos viviam emplastrados no alto da cabeça. Eram finos, ralos.  Perguntou pelo joguinho, mais uma vez ela havia esquecido. Ele não pareceu se importar, como de costume. A supervisora se retraiu. Estaria ele enganando-a com outra? Sorriu consigo mesma. Não, ele não era desse tipo.
      Depois, os aposentos de Donnie, onde provavelmente também encontraria Ronnie. A coincidência deles serem tão apegados era alguma coisa que a intrigava. Mas não só a ela. Sabia que havia boatos, quase tinha certeza que era por causa do que acontecia em sua casa.
          Primeiro, ouviu comentários sobre maridos homossexuais, as revistas propagavam o tema, ela considerando tudo muito absurdo, as mulheres do departamento sempre insistindo naquele assunto. O que você faria? O que se devia fazer? Depois foi o boato sobre adultério. Lembrava-se muito bem, na consulta periódica de saúde mental, a médica insistindo - a senhora não tem problema de benevolência, tem? Que é isso, retrucou; benevolência, tolerância excessiva com os homens, você sabe, eles tem que ser controlados, homem não pensa, não é racional como nós. São emotivos, apenas.
     Se ela pensava assim... Se todo mundo de fato pensava assim... Não, achava que não. Ela mesma. Não pensava assim. Havia gente de todo o tipo, em qualquer condição. Mas não podia dizer o que pensava. Ronnie e Donnie eram vivos e espertos. Um lourinho e outro moreno. Magros, não muito altos. Ronnie glabro, Donnie com barba e bigode. Era a única diferença entre eles, tão parecidos em tudo.
          Certo, não muito racionais. Viviam envolvidos com aventuras inocentes, carros, esportes, a moda. Se tinham aventuras não inocentes, na verdade no fundo ela não se importava. Não os amava verdadeiramente, casara porque era preciso casar, um marido só era um escândalo. Que é que tinha se eles fossem por aí, e... Mas era proibido isso, ela seria acusada de ser uma benevolente, o que seria muito ruim, arruinaria a carreira, a reputação.
        Lá estavam Ronnie e Donnie, aquela noite, vibrando com o campeonato na televisão, bandeiras, triângulos pendurados numa haste fina, pelo quarto, eles insistindo com ela para que ficasse e torcesse pelo time deles, implorando pela compra do ingresso para daqui há alguns dias, quando seria a decisão do campeonato, eles queriam uma veste último tipo, queriam arrasar no campeonato, serem fotografados para a coluna social entre os "dez mais", entre os homens mais elegantes. Ela tinha a responsabilidade, cobravam. Ela, supervisora da segurança pública, seus maridos não podiam fazer por menos...
          Sentiu-se aliviada ao entrar nos aposentos dele. Melvin. Um homem verdadeiramente interessante. Louro e tranquilo, sempre com seus livros. Como alguém podia negar inteligência, racionalidade, a Melvin? "Estou estudando o fenômeno da insônia", ele informou, naquela voz firme, mas algo ciciante, como se fosse uma confidência.
     E depois, o quarto, a insônia. Já havia ultrapassado a fase de se revirar de um lado para o outro. Também a fase de ficar imóvel, esperando apenas. Agora começava a pensar enquanto observava o jogo das sombras nas paredes,  entremeadas pelos pequenos reflexos luminosos vindo das frestas da cortina à janela.     
           As imagens dos momentos anteriores assomavam. Kossak a levara à loucura. Estava agora tão dispersiva como sempre que se deixava enredar por ele. Não entendia como era possível se entregar assim. Era irracional, não como devia ser, porém inevitável, como a gente ser arrastada por areia movediça.
           Kossak produzira-se feericamente, assomara em seu caminho mesmo antes dela bater à porta do quarto dele. Quase a assustara, tão brilhantes os cabelos muito vivamente pintados, róseos, os saltos altíssimos, as unhas projetando-se coloridas, a maquiagem pesada, barrando inesperadamente o caminho no corredor. Nunca antes havia sentido uma ponta de descontentamento na presença dele, porém o inesperado ao mesmo tempo esperado - ela praticamente sabia que ele estava por aprontar algo assim - resultaram num desprazer intenso. Devia ser porque à intuição  mesclara-se o nervosismo, a ansiedade pelo que estava prometido dado o interesse dele no ritual.
          Lutou contra o sentimento absurdo, ela o amava, não queria brigar com ele.
           Mas ele queria brigar com ela.
          Fazia parte dos planos dele, começar pela sedução misturada a comentários sobre como o ritual era necessário, como isso o agradaria, e depois enveredar pelos jogos da face amuada, virando para lá e para aqui, jogando as mãos para todos os lados ou ainda, ficando numa pose fixa, ereta. A fala dele se tornava quase incoerente, de tanto argumentar com violência. Após tudo o que ela pudesse fazer para apaziguá-lo, recomeçava a sedução, ele devia enlouquece-la, até que ela, exausta, cedesse.
    Mas ela ainda não cedera.
                 Agora pensava nisso. Revia tudo. Como concedera, ainda assim, tanto mais do que o permitido. Em termos de intensidade. Em termos do que ele exigia. Não aguentava mais. Precisava falar com alguém, mas recusava-se confidenciar com a médica. Seria perigoso. Poderia ameaçar sua reputação. Por um instante lembrou-se de Melvin.
             É claro que não era decente falar sobre isso com ele. Os pensamentos realinharam-se nesse momento, um pouco menos confusos, e ela lembrou-se de que na verdade, e isso era tão inusitado, ele a intimidava um pouco. Mas como uma mulher podia se sentir intimidada por um homem? Os homens são tão tímidos, eles precisam da nossa proteção, dependem de nós para tudo porque não são capazes de razão. Se ela se sentia assim, havia algo anormal consigo mesma. A médica perguntara-lhe: sente insegurança com os homens?
           Sua experiência provava ser uma mulher bonita - ou ter sido, agora tinha os cabelinhos curtos, pintados, estava na meia-idade. Tivera tantas propostas, tantos interessados nela. Chamara tanto a atenção quando andava ... Mas sempre sentira alguma insegurança. Não era algo que pudesse controlar apenas pelo que lhe diziam os fatos.
            Não tinha vergonha por Ronnie, Donnie e o próprio Kossak serem tão mais jovens do que ela. Essa era a praxe. Não tinha dificuldade em fazer como todo o mundo. Não sabia porque isso não lhe bastava.
        Mas Melvin era até mesmo um pouco mais velho. Quem a entenderia? Isso era quase uma aberração.
          Levantou-se num ímpeto.  Insensivelmente seus pensamentos haviam se desviado para o escritório, o caso das bombas nas Trattorias, o quanto isso a estava afetando. Por causa de Tibbs, ela sentia que Tibbs estava usando esse caso para atingi-la, ultrapassá-la, chegar primeiro ao alvo...
       Não devia se importar com isso. Seu cargo não estava ameaçado. Não fazia diferença alguma se Tibbs resolvesse o caso de uma hora para outra.
Mas a espicaçavam os modos de Tibbs, se não insolentes, apenas porque habilmente disfarçados, deixando uma suspeita no ar, como uma confirmação.
          Já estava se arrumando, pouco depois pegava o carro, estava ao volante pelas ruas escuras, desertas, na madrugada. Fazia um pouco de frio. Estava agasalhada, mas sentia o ar fino contra o rosto. Os semáforos piscavam, mas ela não precisava esperar porque praticamente não havia outros veículos. Era sensível às cores, aos brilhos da cidade em meio ao escuro da noite. Aportou, depois, aonde queria.
       Estacionou o carro, um pouco longe, um pouco perto, da casa suspeita, onde vivia a senhora idosa com o mordomo. Pelo que sabia, eles deviam estar recolhidos. Ficou ali, meditando. O que estaria oculto por trás dos muros daquela casa? Como seria possível descobrir? Seus pensamentos estavam ágeis, começava a esboçar um plano, mas nesse momento surpreendeu-se grandemente. Viu um carro estacionando na frente da casa, o mordomo saindo do veículo, entrando na casa. Ele não estava lá até então, obviamente. Onde poderia ter ido? Raciocinou que era preciso esperar pela manhã para ter as imagens da saída dele de dentro da casa, em função das quais talvez ela tivesse uma pista. Estava excitada com a descoberta. Não combinava com nada do que sabiam. O velho mordomo não saía de casa, lhe garantiram, e Tibbs insistira nisso. E pelo que a supervisora constatara nesse instante, ele não era tão velho assim.
         Voltou para casa, satisfeita com o rumo dos acontecimentos. Até mesmo conseguiu dormir um pouco. Na manhã seguinte, quase não aguentava ter que esperar para confrontar Tibbs com o que ela não sabia.
         Porém Tibbs não viera ao trabalho naquela manhã. Ao perceber que se demorava demasiado, a supervisora obteve a informação de que Tibbs estava de licença por aquele dia. Ela agendara o seu exame médico obrigatório. A supervisora sentiu-se de repente muito frustrada, e tomou a decisão de ir até o consultório. Era imperioso falar com Tibbs, revelar o que descobrira.
          Mais uma vez surpreendera-se. Tibbs não estava no consultório, ela não comparecera ao exame. A frustração aumentou ao ponto de sentir-se constrangida. Não podia ser assim, protestou consigo mesma. Logo depois estacionava o carro em frente ao edifício de Tibbs.
            Hesitou antes de saltar do veículo. O que estava fazendo? Isso não era regular. Como ia se apresentar a Tibbs, caso ela estivesse no apartamento. "Olá, Tibbs, aqui é sua supervisora, querendo saber por que você não foi ao exame"? Não, não estava certo. Não era possível. Arrancou novamente com o carro. Voltou ao escritório.
          Solicitou a Marz as imagens registradas da casa, na noite anterior. Havia antecipado com tanta intensidade o momento em que devia mostrar a Tibbs o mordomo saindo à noite... Renunciou àquele pensamento. Infantilidade, raciocinou. Apenas isso.
          Por um instante, lembrou do regulamento. Uma mulher inteligente, com mais idade, pode demorar mais para aprender do que quando era jovem, mas sempre aprende mais ligeiro do que uma jovem burrinha ou mediana.
                 Acomodou-se consigo mesma, reconciliada. Pegou a xícara de café e esperou a imagem do mordomo saindo, apressando a fita para compactar a observação em tempo hábil.
             O que não aconteceu, de novo.
             Repetiu tudo, com mais vagar. Não se importou com a demora. Estava atônita, mas não deixou que as outras percebessem. Alguém havia montado a filmagem, eliminando a cena do mordomo saindo.
             Naquela tarde resolveu-se por encerrar o expediente mais cedo. Deixou as outras no escritório. Comprou o joguinho de Servs, as entradas para a decisão do campeonato, para Ronnie e Donnie. Visitou uma estilista de suas relações, que em ocasiões elegantes assistia aos seus maridos e combinou com ela para a ocasião do campeonato. Ronnie e Donnie poderiam vir amanhã para as provas, e pegar as roupas na tarde anterior ao jogo, combinaram.
           Pensou, com uma ponta de malícia, que Ronnie e Donie chamariam a atenção que desejavam entre os colunistas sociais, causando o furor que esperavam, exceto se o próprio Kossak resolvesse também assistir à decisão do campeonato.
          Em casa sentiu-se reconfortada com a alegria de Servs ao receber o presente, seu tão querido joguinho. Ronnie e Donnie aquiesceram, de nariz para cima e com jeito esnobe - que revelava estarem treinando arduamente - ao comunicado dela sobre a estilista.
          Melvin pareceu-lhe especialmente educado, gentil e receptivo. Havia algo de entusiástico nele, aquela noite, que era contudo difícil para ela aquilatar. Porque Melvin tinha sempre algo de paradoxal, e se parecia entusiasmado, então devia também parecer mais sério. Era assim, agora. Informava-lhe que concluíra o estudo sobre a insônia, com resultados satisfatórios, e agora estava muito interessado em hipnotismo. "As pessoas deviam estar alertas", ele afirmou, pausadamente, os olhos quase oblíquos, grandes, na face bem talhada, os cabelos louros, brilhantes qual flâmula na noite, "para a diferença entre a profusão dos pseudo-métodos dos charlatões que mistificam pessoas ignorantes, desejosas de obter domínio sobre os outros, e a verdadeira hipnose médica". Ela sentiu vontade de ficar ali por
mais tempo.
             Contudo, estava cansada e precisava ver Kossak. Quanto a este, tivera uma resolução importante nesse ínterim. Havia raciocinado que se ele queria que ela participasse do ritual, deveria então antes demonstrar o quanto a seita era eficaz. Ela sabia que ele já havia se interessado tão intensamente como agora, por dezenas de seitas parecidas, e contava com isso para solucionar a crise. Mas o interesse de Kossak estava no auge.
              Fez que ela sentasse, ocultou-se no banheiro da suíte e de lá retornou com um véu sedoso  escondendo-lhe a face, deixando à mostra apenas os olhos soberbos, que o véu realçava. As sobrancelhas grossas, másculas, vindo se juntar a meio dos olhos como numa reticência infinita. Ela pensou que ele iria começar uma cena de dança oriental, já que ouvia a música exótica, mas ele apenas se aproximou e começou a recitar comandos em voz alternada, a princípio solene, depois num tom monótono. Ela devia dormir. Dormir. Dormir.
             Os incensos que Kossak acendera profusamente eram pesados, perturbadores, ainda que o cheiro fosse extremamente agradável.
        Não sentiu-se particularmente atingida pelas manobras aliciantes do místico, mas concordou que estava com sono, ainda mais do que realmente acontecia, para agradá-lo. Porém ele queria mais alguma coisa, ou porque era contraditório por temperamento, ou como uma compensação porque não obtivera o  pretendido efeito hipnótico (ou porque esta escritora não simpatiza com ele, está torcendo pelo alternativo, e está se lixando se ele não faz o menor sentido)
           Ela descobriu então que estava realmente cansada. O sentimento de frustração retornara. Encaminhou-se ao seu quarto e tentou refazer-se com um boa noite de sono.
   
      Na manhã seguinte, Tibbs viera ao trabalho sem comentário algum sobre o dia anterior. A supervisora indagou a ela sobre o exame. Tibbs respondeu simplesmente que já havia agendado há algum tempo. Implicitamente, mentira. A supervisora não insistiu. Não queria que ela soubesse que não havia sido lograda. Havia algo estranho, obviamente.
      Começaram a examinar os vídeos. Aquele trabalho deveria demorar por pelo menos uma semana até que um padrão definido das ações do mordomo e da velha senhora pudesse emergir. Havia também um homem, mais jovem que o mordomo, que fazia serviços domésticos. Ao inverso das demais, as conclusões da supervisora equacionavam o que havia visto. O mordomo sempre parecia mais velho do que verificara pessoalmente que ele devia ser. Efeito da câmera, ele não era fotogênico. Ela sabia que não só por isso  não podia confiar inteiramente nas imagens, pois pelo menos uma vez sabia que haviam sido editadas para omitir atos reais.
          Estava surpresa com a atitude de Tibbs. Naquela semana, ela manifestara uma tendenciosidade nítida. A velha senhora escrevia amiúde em seu sistema de registro eletrônico, e Tibbs aparentava ter grande curiosidade a propósito do conteúdo. Queria muito convencer a todas de que era necessário saber o que estava escrito, provavelmente estaria ali a conexão entre as saídas da velha senhora e o que queriam saber, as bombas nas Trattorias. A supervisora lembrava constantemente que não sabiam de fato se sequer existia a conexão. Tibbs, pelo contrário, mostrava-se sempre mais confiante à medida que a semana avançava, a velha senhora não saía de casa, e nenhuma notícia de bombas acontecia.
       A supervisora começou a se convencer de que era necessário voltar à casa, ou ao menos informar-se sobre  se as saídas noturnas do mordomo eram constantes. Nenhuma delas foi registrada na filmagem, se houvera qualquer desde a noite em que o surpreendera.

        O ambiente estava às escuras, como ela deveria esperar. Sorrateiramente entrando na casa, com todo o seu treinamento evitava fazer qualquer barulho. Tinha conhecimento da situação. Com Frenz e uma rede de informação atuando no trânsito, pudera saber o momento exato da saída do mordomo. Elas estavam controlando o trajeto dele na noite, nesse momento. Logo a supervisora saberia aonde ele estava indo.
          Era logo depois do anoitecer, quando as pessoas costumavam jantar, que o mordomo se ausentara. A senhora idosa cedo recolhia-se, e ele ficara livre para a evasão. Não pudera apurar se a mulher sabia das escapadas do mordomo. O rapaz que fazia serviços domésticos dormia alhures.
         Penetrou com cuidado na casa. Não havia alarmes, ela sabia. Conhecendo a localização, encaminhou-se cuidadosamente ao quarto do mordomo.
        A porta estava trancada. Rezando para não fazer barulho, utilizou seu cartão universal para abri-la - nesse tempo as portas já estavam todas movidas a cartões magnéticos.
       A operação logo se revelou exitosa. Neste quarto havia folhetos de propaganda conclamando a reuniões clandestinas, porém bastante  radicalizadas, a julgar pelo teor da propaganda. Era dirigida a homens, falava sobre "libertação", "justiça com as próprias mãos", exortava à resistência contra a "secular opressão" das mulheres. Obteve provas da manipulação de fórmulas que resultavam na fabricação de bombas.
      As coisas ainda não estavam totalmente claras, mas o que constatara desse material era obviamente relacionável com a ação de atentados, ainda que ela não soubesse o que havia por trás da propaganda. Nesse momento seus ouvidos treinados captaram um ruído. Assim que a porta abriu ela já estava totalmente às escuras, a lanterna apagada, oculta sob a escrivaninha e com o revólver apontado naquela direção.
         Um rapazinho trêmulo perante o que a luz que ele mesmo acendera revelara após entrar fechando a porta, estacou logo após os primeiros passos. Ela compreendera tratar-se do serviçal doméstico, e assomara à sua frente.
           "Não atire", ele suplicou.
           Ela o fez trancar a porta, deixando- amarrado e amordaçado, no quarto. Não tinha opção e estava com pressa. Não se interessou por saber o que o rapaz queria no quarto do mordomo.
           Pensou por um instante, enquanto o amarrava, que poderia ter que enfrentar a senhora, temendo um pouco sobre o que poderia acontecer se ela estivesse armada também, ainda que fosse pouco provável devido à idade.
         Nada daquilo era coerente com o que as filmagens mostravam, e ela se arrependeu um pouco por ter confiado no que sabia já não ser confiável. Mas a mulher não assomou em socorro do rapazinho. O que era compreensível por ser tão idosa (ou de fato não era muito compreensível; pessoas idosas tem menos sono; ou não tem? Além disso, se ela não era surda, devia ter ouvido o rapazinho suplicar. Mas isto é uma ficção conveniente com as famosas cláusulas do gênero. Portanto, trocando em miúdos, pura curtição; não incentivo para bancar o herói. Deixe isso para os especialistas).

                 Logo que se certificara não ser o intruso o mordomo, pensou que não havia duvidado por um segundo da sua rede de informação, que devia alertá-la sobre o trajeto do suspeito. Ela saberia se ele estivesse retornando, o pequeno  aparelho de mensagens vibraria silenciosamente, junto ao seu corpo.
          Mas de fato, quase irracionalmente, houvera o momento da dúvida, assim que seus ouvidos captaram o ruído. Agora aquela espécie de hesitação voltava como impaciência. Porque demoravam tanto para comunicar onde o mordomo estava nesse momento? Certamente ele já devia ter chegado aonde quer que tivesse ido. O aparelho que possuía registrava qualquer mensagem sem fazer ruído, e ela verificava de minuto a minuto, desde que abandonara a casa com as informações que recolhera. Sem qualquer registro, ainda.
          Estava esperando em seu carro, nos arredores. Não podia tomar qualquer decisão sobre o que fazer em seguida, antes de saber. Mas a indecisão não combinava com o seu temperamento. Acelerou e se pôs a desfrutar da calma da noite, das ruas desertas. Estacionou algumas esquinas depois, para verificar novamente o aparelho de mensagens. Quase não acreditou nas letras que se haviam formado na pequenina tela.

         O cartão universal franqueou-lhe o acesso ao hall de entrada do bonito edifício. Não havia porteira, naquela altura da madrugada. Subiu pelo elevador. Não fazia parte dos seus planos usar o cartão para abrir a porta do apartamento de Tibbs.
        Tocou a campainha. Sentia como se pudesse perceber, com um olhar que trespassava o obstáculo, a surpresa da outra no interior do apartamento, seus gestos procurando alguma saída, mas sabendo que era preciso enfrentar o enigma desse alguém que interpelava, àquela hora da noite, na situação em que estava, com um homem ali. Alguém que pudera subir sem ser incomodado pela tranca supostamente indevassável da entrada do edifício.
       A supervisora ouviu, finalmente, o ruído do interfone sendo acionado. "Quem é?" - uma voz entre a suspeita e a esperança de que fosse apenas alguma vizinha, ainda que essa hipótese, pelo horário, beirasse o absurdo. "Tibbs, aqui é sua supervisora, não tente resistir, abra a porta, é uma intimação oficial".
        Ouviu a respiração apressada, junto ao bocal do interfone. A suspeita no íntimo, recalcada para os limbos do impossível, subira como um fluxo para transformar-se na certeza de que havia sido descoberta.
       Abriu a porta. Não podia fazer de outro modo. Mas como a supervisora constatou num átimo, olhando para ela, Tibbs conservara ainda uma esperança de que o insólito da visita não tivesse relação com o que escondia no quarto.
        "Tibbs, apresente o mordomo. Já sei de tudo". A reação da outra não foi como a supervisora esperava. Tremendo, como se não tivesse controle sobre si, após fechar a porta ela apenas meneava a cabeça numa negativa reiterada.
     A supervisora foi nesse momento surpreendida pelo próprio mordomo que vindo do quarto, avançou diretamente contra ela. Ainda não havia apontado a arma, imprudentemente não calculara que seria necessário. Confiança demasiada, raciocinou em meio à luta corporal, na honestidade de Tibbs, uma profissional da seção.
          Tibbs de fato não ajudava o mordomo enquanto ele a subjugava com força, mas a supervisora já não sabia se era pelo brio reflexo de ser quem ela era, ou ao contrário, por saber que o homem faria o necessário sozinho.
          A supervisora compreendeu a intenção dele, assim que captou-se imobilizada entre as mãos possantes. "Pegue as algemas", o mordomo comandou a Tibbs, por trás da supervisora cujo corpo mantinha preso junto a si. Numa pequena reviravolta do corpo, ele sacou um revólver que passou a apontar entre suas costelas.
          Frente a frente com a funcionária, a supervisora não podia sentir-se pior, uma vez que entrara naquele aposento como se isso fosse o suficiente para provar a própria superioridade. Agora estava à mercê deles, da funcionária a quem julgara estar ministrando bela lição, e do bandido que devia estar capturando gloriosamente. Mas não era o momento de se deixar levar por sentimentos. Gritou: "Tibbs, esse homem é um criminoso. Ele é o responsável pelos atentados. Você não tem saída, o prédio está cercado".
         Percebeu que a outra vacilava. Pensou que ela estivesse assimilando o comunicado de que a seção sabia que a supervisora estava ali, e que as agentes esperavam pelo desfecho do caso, a supervisora retornando do apartamento com ela mesma e o mordomo, todos emergindo na portaria do prédio. O mordomo devia estar aquilatando as possibilidades de agir, equacionando a mesma informação.
           Na verdade, era um blefe. Não de todo, porque de fato a seção sabia. Frenz coordenara a cobertura do trajeto, conhecia o surpreendente paradeiro do mordomo, ainda que não tivesse instruções além disso.
          Mas, ao invés de qualquer observação pertinente da parte de Tibbs, ouviu apenas o mordomo retorquir, rispidamente: "é um blefe, pegue as algemas, temos que nos livrar dela".
            "Não, Tibbs..." A supervisora foi interrompida por um brusco aperto em seu estômago, a partir da pressão que o mordomo fazia com um dos braços, com o outro segurando a arma contra suas costas.
           A dor que sobreveio foi porém suavizada logo depois. O mordomo ouvia Tibbs lhe ordenar que a soltasse. Ele relaxou um pouco a pressão, mas não totalmente.  A supervisora sabia que não devia aproveitar a oportunidade. Mesmo que conseguisse soltar-se, tentando lutar para desarma-lo, seriam dois contra ela, e em todo caso seria mais fácil que ele atirasse ainda que ela duvidasse que ele o fizesse por causa de Tibbs, cujas intenções porém a supervisora ainda não aquilatara totalmente.
        "É um blefe", repetiu o mordomo, mas a voz de Tibbs sobrepôs-se à dele.  "Ele não é o criminoso, é ela", Tibbs declarou enfaticamente, para a supervisora imobilizada à sua frente, referindo-se obviamente à senhora idosa para quem o mordomo trabalhava.
         "Não, Tibbs. O criminoso é ele. Está te usando e enganando. É o líder de uma rede de homens que querem eliminar mulheres para fazer uma revolução política", a supervisora respondeu com veemência.
        As palavras se avolumavam, fluentes, muito ligeiro. A supervisora jogava tudo naquela pequenina chance. "Tibbs, ele tem as bombas no quarto da casa, eu verifiquei pessoalmente". "É um blefe, Tibbs, não há ninguém além dela, pegue as algemas", o mordomo vociferou, enquanto pressionava a arma com mais força.
         Viu Tibbs virar as costas, afastando-se um pouco. Ela retornou com as algemas. O mordomo ainda segurava-a pela altura do estômago, enquanto Tibbs vinha por trás e a imobilizava, agora prescindindo da força física do cúmplice que limitava-se a apontar a arma.
            A supervisora não podia acreditar no que estava acontecendo. Como pudera ser tão inconsequente e precipitada! Algemada a supervisora, Tibbs fez uma pequena pressão em seus ombros para que compreendesse que devia sentar-se no tapete da sala bem decorada.
           Nessa posição constrangedora, viu o mordomo escarrapachar-se numa poltrona, suando, logo após depositar o revólver num aparador que centralizava o espaço na frente do sofá. Sem uma palavra, mas visivelmente aliviado, o homem afrouxou a camisa desprendendo os dois botões cimeiros. Era musculoso, muito mais jovem do que parecia nas filmagens, e mesmo do que ela entrevira em seu carro, quando o surpreendera retornando à casa, no escuro da noite. Compreendeu que não era uma questão de fotogenia. Ele soubera todo o tempo que estava sendo espionado e filmado, deliberadamente se disfarçando para parecer muito mais velho.
             Tibbs estava por trás disso, era claro agora para a supervisora, assim como do fenômeno da supressão das cenas que flagravam as saídas dele, à noite. Para encontrar-se com Tibbs, a supervisora raciocinou, mas também para as reuniões clandestinas, ela ponderou sentindo porém que agora todo saber era inútil.
            Tibbs, saindo de suas costas, avançou com um ar de imensa tranquilidade. A supervisora a viu caminhar na direção dele. Pensou que ela devia estar saboreando a vitória sobre si mesma, a velha supervisora que revelava ter-se tornado tão imprudente, com a idade, e que Tibbs iria enlaçar-se fisicamente ao homem. Não havia dúvida de que ele a fascinara pelo amor.
           Mas pelo contrário, Tibbs apoderou-se do revólver, com um gesto rápido. O mordomo estacou em meio ao gesto continuado de aparar o suor da própria testa. A supervisora, vendo-a de perfil com o revólver, tremeu, pensando que iria voltar-se contra si e atirar.
        Tibbs apontava porém, para o mordomo. "Solte-a", ordenou peremptória, secamente. O mordomo parecia não crer que ela o dissera. Tibbs esperava, com a arma firmemente apontada. Num instante tornou-se claro que não era possível resistir à ordem dada. O mordomo libertou suas mãos das garras de aço. "Entregue a ela", Tibbs reiterou. A supervisora pegou as algemas que o mordomo oferecia, sob a mira do revólver. A supervisora compreendeu que era ela mesma, agora, que devia algemar o mordomo.
         Após o que, voltou-se para Tibbs, esperando ler no rosto da outra, um sorriso de desdém, uma mistura de orgulho e alívio. Mas Tibbs estava chorando. Compreender a verdade não lhe trouxera nada além de sofrimento. Ela amava o mordomo, havia acreditado realmente nele.
        A supervisora sorriu, intimamente. Não havia sido como planejara, mas o desfecho do caso também era mérito seu. E Tibbs não deixara de ter se engando.
          
          Ronnie e Donnie fizeram o sucesso que desejavam entre os colunistas sociais na decisão do campeonato, ainda que o time deles não houvesse ganho. Servs andava tão entretido com o joguinho como ela esperava que ele estivesse, e ela sabia que demoraria ainda um bocado para que ele solicitasse, tão somente, um novo joguinho. A supervisora prometeu a si mesma que iria conceder mais atenção a ele. Era tão necessitado de carinho... Precisava era de coisinhas gostosas, alimentos fartos, todos os enfeites simples que ele gostava, e o afeto que ela tinha por ele se expressava nesse prazer de satisfazer. Ela mataria, cortaria a mão abusada que algum dia tivesse pretendido tirar alguma coisa que ela houvesse dado a ele. 
      Kossak, com sua estonteante beleza masculina, não ameaçou as ambições sociais de Ronnie e Donnie. Ele  não se interessava mesmo por esportes. O desapontamento para com as promessas dos mágicos poderes hipnóticos da seita arrefeceram um pouco o seu ardor em convencê-la a participar do ritual. Mas não desistira completamente, porque seria como renunciar a uma conquista.
           A supervisora suspeitava, por seus modos algo irritados -  e demasiado exuberantes, se isso era possível -  de que ele estava escondendo um sombrio sentimento de ciúmes. Ela se perguntava qual a razão disso, pensando consigo mesma que a única resposta poderia ser o interesse crescente que ela andava demonstrando pelos promissores estudos e descobertas científicas de Melvin.
           Na verdade ela vinha ponderando ser necessário consertar o desequilíbrio de suas relações conjugais. Até se deixar capturar pelo irresistível Kossak, cumpria suas obrigações com a constância típica das mulheres responsáveis e que consideravam humanamente as necessidades dos seus maridos. O número de quatro tornava o calendário mensal fácil de organizar. Era porém esperável que na meia-idade, ela se tornasse um pouco mais esquiva...
          Mas o que realmente ocorrera fora que Kossak, o quinto, roubara a cena, por aqueles tempos recentes do casamento com ele - até que, agora, tomara a decisão de restaurar a paz familiar. Porém o que estava acontecendo nessas semanas, na realidade, era um inexplicável interesse nela despertado por preleções científicas...
          Nessa noite a supervisora estava particularmente feliz. Tudo já havia sido esclarecido na seção, e sua versão dos fatos, costurada como um plano de emergência para convencer Tibbs a deter as intenções cruéis do mordomo para consigo mesmo, havia sido confirmada.
          A supervisora não nutrira dúvidas sobre que o material das bombas que constatara no quarto do mordomo, era destinado a posteriores atentados, e explicavam os que já haviam ocorrido, à rede de Trattorias. Mas a relação desses atos com a propaganda de grupos de homens clandestinos, sublevados contra a autoridade das mulheres, não era imediatamente comprovável. Nem mesmo era muito coerente.
       Os homens necessitavam da nossa proteção, e o sabiam, as mulheres argumentavam. Quem deles seria tão aloucado a ponto de aventurar atacar aquelas de quem tão totalmente dependiam? Eles, que não podiam direito enxergar um palmo à frente do nariz, tão naturalmente feitos para serem apenas amados e responsavelmente tratados pelas mulheres, os seres deste mundo dotadas de racionalidade, responsabilidade, disciplina e perseverança - como informava o regulamento...?
        Ainda assim a supervisora se inclinara pelo possível nexo. Não era tão incoerente pensar que sendo os homens irresponsáveis como eram, podiam ter se tornado invejosos pela inculcação de um perverso, de modo que sem aquilatar as consequências, entregaram-se ao motim.
          O confisco do computador do mordomo revelou que os planos referentes aos grupos radicalizados eram relacionados à série de atentados à rede das Trattorias. As reuniões eram alardeadas à base do apelo altamente emocional, quase extático, pela vingança dos século contra um domínio espantosamente taxado de antinatural. E elas eram como uma festa, comemorando cada atentado, ao mesmo tempo a promessa de outro e a constatação de que o deus dos homens estava abençoando a sua conspiração.
         Tibbs ficou sem saber o que a idosa senhora tanto escrevia em seu aparelho de registro. Mas tornou-se claro que as saídas dela só tinham a ver com os atentados porque o mordomo sincronizara as duas coisas, a fim de que Tibbs acreditasse na versão dele. Nunca de fato dissera a ela que a boa velhinha era a terrorista, mas sempre insinuara que era o mais provável. A seção investigadora descobriu que a senhora idosa  apenas  costumava visitar instituições filantrópicas, que ela auxiliava. O mistério quanto aonde ia havia sido forjado. Tibbs se envolvera mais do que estava disposta a conceder, talvez para si mesma.
           Tibbs fora convencida pelo mordomo a falsificar a sequência das imagens obtidas pela câmera oculta. Certamente iria ter que prestar esclarecimentos, submeter-se a alguma sanção. Ela poderia alegar que havia sido enganada por ele, acreditando, por um lado, que o mordomo era quem assistia instituições filantrópicas, mas não podia revelar à patroa que segundo ele o dominava depoticamente; por outro lado, as evasões dele destinando-se aos encontros com Tibbs. Não era grave que ela tivesse ligações sentimentais com o mordomo, uma vez que era demonstrável plenamente que ela nunca havia participado dos atentados, salvando a vida da supervisora.
         Já naquela tarde, enquanto na seção todas comemoravam o desfecho do caso sem derramamento de sangue, conjecturavam se a justiça iria culpar além do mordomo, também aos participantes da seita. Não obstante só ele ser o responsável pelas bombas - ou isso ainda estava para ser confirmado. E ficara ainda por se apurar as relações do rapazinho serviçal com o mordomo. Seria um cúmplice? Pelo que já haviam apurado em interrogatórios e acareações, o rapazinho era inocente. Havia se dirigido ao quarto do mordomo na noite em que a supervisora o investigava, apenas porque teria percebido algum movimento.
         Assim a supervisora e as funcionárias comentavam o caso, quando o  registro de um novo caso foi enviado. Agora havia sido detectado um atentado a bomba numa agência publicitária. Poderia ser o inicio de uma série?
         A supervisora leu a mensagem, mas logo acionou o recurso de reorientar o destino da investigação. Ela despachou o caso para a seção nona, a das investigadoras ultraespecializados. Era um truque e ela sabia. Essa seção era tão minuciosa, que as investigações poderiam levar anos. A supervisora não tinha a menor simpatia por agências de publicidade.
             Suspeitava que tais agências fomentavam ideias transgressivas. Inculcavam sordidamente, mediante imagens manipuladas com habilidade  para parecerem hipnoticamente atrativas,  a compulsão competitiva do consumo de mercadorias como forma de comportamento arrogante ou até delinquente, visando especificamente a esses seres puramente emotivos que são os homens
          Sentia-se maravilhosamente, livrando-se de ter que ajudar a tais agências. E naquela noite, a supervisora não precisava visitar todos os seus maridos, por estar na agenda a segunda visita conjugal do mês de - nada menos que - Kossak. Contudo, por algum desses acasos do sentimento humano, ela deteve-se antes na porta do quarto de Melvin. Queria conversar um pouquinho com ele.
          "Conversar com Melvin é  tão relaxante...",  ela constatou. As ideias se alinhando com coerência, limpidez, brilho...  "E ao mesmo tempo, tão instigante"... Um homem demonstrando o seu à vontade com os produtos da inteligência feminina! Como era enigmático... Seria mesmo possível?
         (Neste trecho, esta escritora protesta ter se eximido de forçar a barra a favor do seu protegido e apenas ter deixado falar a pura voz da coerência e da justiça social!) O olhar de Melvin estava particularmente profundo aquela noite. Os cabelos louros a prendiam como se ela fosse a mariposa, e ele a luz. A penumbra do quarto, tão aconchegante... Ela deixou-se levar... Como que muito ao longe, vindo da direção do quarto de Kossak, o som de uma música exótica, oriental, fez-se ouvir. "Ele pode esperar para um outro dia...", ela ainda teve tempo de pensar antes de abandonar-se ao delicioso  beijo de Melvin, inebriada.
    
                  /////// ===============
                     ------------------- 
   //////////////////////////////////////////////////////////////////        
//////////////////////////////////////////////////////////////
   QUALQUER ACRÉSCIMO  NESTA PÁGINA DEVE SER ATRIBUÍDO  A INTERVENÇÃO ILEGAL;
   //////////////////////////////////////////////////////////////////
  /////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
 /////////////////////////////////////////////////////////////////////////
  ////////////////////////////////////////////////////////////////////       
  ////////////////////////////////////////////////////////////////////     
 ////////////////////////////////////////////////////////////////////      
//////////////////////////////////////////////////////////////////////